Resistência e estímulo <br>do Alentejo
Edgar Silva passou o último sábado de campanha no «Alentejo profundo», onde a resistência do povo «tem tantos anos quantos a portugalidade», exemplo que dá força ao crescente movimento de cidadania, por direitos que o Estado deve garantir.
O povo do Alentejo dá um estimulante exemplo de dignidade e resistência
Aos problemas da interioridade, com destaque para o despovoamento, o Presidente da República não pode ficar alheio nem limitar-se a lamentos, defendeu Edgar Silva nos discursos em Arraiolos, Serpa e Moura. O candidato lembrou que a actual situação resulta de decisões políticas dos governos e das maiorias parlamentares, ao longo dos anos, criticando o desinvestimento público, o encerramento de escolas, centros de saúde, postos dos CTT e da GNR, tribunais e também a extinção de freguesias. Enalteceu o trabalho das autarquias locais e dos eleitos «mais progressistas e mais identificados com o povo», que tem evitado consequências ainda mais graves de tal política, e voltou a propugnar a concretização da regionalização.
Nas três iniciativas, Edgar Silva acentuou a necessidade de incrementar o esclarecimento e a mobilização para o voto, porque é no próximo domingo que se decide a derrota do candidato da direita. Recordou que, na eleição do Presidente da República, não vence o candidato mais votado, mas é exigido que tenha mais de metade dos votos entrados nas urnas. O voto em Edgar Silva contribui para impedir que seja eleito Marcelo Rebelo de Sousa e, além disso, «serve os interesses e direitos do povo, dos trabalhadores» e «reforça este projecto que é plenamente nosso», levando a que «os valores de Abril saiam triunfantes» nesta batalha.
O almoço no pavilhão multi-usos de Arraiolos reuniu mais de 500 apoiantes e activistas do distrito de Évora, com maior peso do concelho anfitrião. O candidato foi recebido com calorosos aplausos, sob a palavra de ordem «Edgar avança, com toda a confiança». Juntou-se ao grupo Trovadores do Redondo, para cantar «Traz outro amigo também».
No palco do comício, Edgar Silva foi acompanhado por mandatários concelhios da candidatura, presidentes de câmara, dirigentes regionais e nacionais do PCP e do PEV, entre os quais o líder parlamentar comunista, João Oliveira, e João Dias Coelho, ambos membros da Comissão Política do PCP.
Ao falar sobre a forma como tem corrido a campanha, Alexandre Varela, mandatário distrital, assinalou os crescentes apoios de diversos sectores e notou que, com a insistência em colocar na agenda eleitoral a Constituição, as demais candidaturas acabaram também por abordar o tema.
Pouco depois das 16h45, Edgar Silva entrou no salão polivalente de Serpa, sob aplausos e com uma plateia de cerca de 200 pessoas a gritar «Abril presente, Edgar a Presidente». Ouviu as Ceifeiras de Pias, algumas das quais, para ali estarem, superaram problemas de saúde, provando quanto vale o querer sobre o poder.
Na sua intervenção, como sempre, de improviso, Edgar Silva começou por considerar o cante alentejano, património imaterial da humanidade há pouco mais de um ano, como expressão do sentir de um povo. Cantando os montes abandonados e a terra que não produz, falou-se do despovoamento, que tanta devastação social arrasta em Portugal e, particularmente, no Alentejo. Mas este «não é um destino a que estejamos condenados», «não pode ser fatalidade».
No palco, com o candidato, estiveram as mandatárias concelhia e distrital, dirigentes comunistas locais e regionais, Manuela Cunha, dirigente do PEV, o deputado João Ramos e João Dias Coelho, da Comissão Política do PCP.
No Parque de Feiras e Exposições de Moura, onde mais de 250 apoiantes se reuniram para um jantar-convívio de apoio à candidatura, outro grupo coral feminino recebeu Edgar Silva. As Flores da Adiça interpretaram uma moda a falar da orquídea selvagem e da rosa albardeira, que encantam quem sobe ao Talefe.
A cada uma das cantadeiras, Edgar agradeceu com dois beijos e disse-lhes o que repetiria pouco depois, no discurso mais acalorado do dia: importa preservar estas flores raras da serra, tal como é preciso defender os valores de Abril, «peças raras mas fundamentais» para o País.
Na mesa, com o candidato à presidência, sentaram-se dirigentes concelhios e regionais do PCP, incluindo o deputado João Ramos, Miguel Madeira, do Comité Central, e João Dias Coelho, da Comissão Política do CC; Manuela Cunha, dirigente do Partido Ecologista «Os Verdes»; a mandatária distrital da candidatura, Maria da Fé Carvalho; e o mandatário concelhio, Santiago Macias, presidente da Câmara Municipal de Moura, que numa breve saudação, assinalou que Edgar Silva foi «o único candidato que veio pisar estes terrenos» mais distantes de Lisboa.
Garantia e abertura
Edgar Silva reafirmou que o apoio do PCP «é o selo de garantia desta candidatura», que «é aberta, tem apoios de outros democratas e patriotas com fome e sede de justiça, amantes da paz e da liberdade, amantes da democracia, ecologistas do PEV e outros, homens e mulheres de Abril».
Má experiência
«Há uma experiência de descrença e desconfiança» na possibilidade de ser o Presidente da República um «provedor do povo», que ouça «o clamor dos trabalhadores, o clamor da terra». O titular do mais alto cargo do Estado «tem recebido vaias, apupos, indignação» não «por azia difícil ou por mau feitio» das pessoas, mas porque «tem agido contra o povo».
Útil e não fútil
Há que distinguir o voto «útil» (aquele que serve os interesses e os direitos dos trabalhadores e do povo) do voto «fútil» (o voto de conveniência, de circunstância, de quem se resigna a um mal menor e aceita viver a vida por metade), disse Edgar Silva no Alentejo, relatando um diálogo com um apoiante em Silves, na véspera.